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Mundo: Cientistas discutiram hipótese de “vírus fabricado” na China

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E-mails divulgados pelo Comitê de Supervisão e Reforma dos Republicanos no Congresso dos EUA dizem que o conselheiro do presidente Joe Biden para covid, Anthony Fauci, teria preferido não discutir a tese de que o novo coronavírus se espalhou a partir de laboratórios de Wuhan, na China.

Eis o relatório (544 KB, em inglês) enviado pelos congressistas James Comer e Jim Jordan ao secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Xavier Becerra, na 3ª feira (11.jan.2022).

Os documentos originais não foram fornecidos pelos congressistas, que divulgaram só as transcrições do que seria a troca de e-mails.

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Em um dos e-mails, Fauci teria dito que os rumores são como “objetos chamativos que logo vão embora”. Em resposta ao médico e diretor do NIH (Instituto Nacional de Saúde, na sigla em inglês) Francis Collins, ele teria escrito em 17 de abril de 2020 que “não faria nada sobre isso agora”.

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Antes, Collins pediu se havia algo que o NIH poderia fazer para encerrar os rumores de que a China teria criado e disseminado o vírus intencionalmente em um laboratório de Wuhan, o 1º epicentro da pandemia.

Ele cita uma reportagem da Fox News sobre o assunto –já fora do ar. Quero saber se há algo que o NIH pode fazer para ajudar a acabar com essa conspiração destrutiva que parece estar crescendo muito”, escreveu Collins. É então que Fauci sugere que não se aborde o assunto naquele momento.

  Cientistas discutiram hipótese de “vírus fabricado” na China © Fornecido por Poder360

O comitê diz que os e-mails foram enviados aos congressistas via requerimento à Lei de Acesso à Informação pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA.

As versões, porém, não estão disponíveis na íntegra: os e-mails foram transcritos antes de serem publicados. O motivo, segundo o comitê, é que os documentos só poderiam ser vistos diretamente por membros do Congresso, e não pelo público.

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No relatório, Comer e Jordan afirmam que Fauci e Collins preferiram “esconder a verdade sobre as origens do vírus na China. O comitê republicano pediu uma entrevista com Fauci para esclarecer os e-mails.

Quem é quem nos e-mails

  • Anthony Fauci – imunologista norte-americano, é o principal conselheiro de Joe Biden para covid. Ao longo da carreira, contribuiu para as descobertas sobre a Aids e outras imunodeficiências;
  • James Comer – deputado republicano pelo Estado de Kentucky desde 2016;
  • Jim Jordan – deputado republicano pelo Estado de Ohio desde 2007;
  • Xavier Becerra – atual secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA;
  • Francis Collins – médico e diretor do NIH (Instituto Nacional de Saúde, na sigla em inglês);
  • Jeremy Farar – pesquisador britânico e diretor do Wellcome Trust, instituição filantrópica com sede em Londres de apoio à pesquisa;
  • Lawrence Tabak – cirurgião dentista e cientista biomédico norte-americano. É o atual diretor interino do NIH;
  • Michael Farzan – doutor em imunologia pela Harvard, foi o pesquisador que identificou o receptor SARS pela 1ª vez;
  • Ron Fouchier – virologista holandês. Ficou conhecido ao publicar sua pesquisa sobre o ganho de função dos vírus da gripe;
  • Christian Drosten – virologista alemão especializado na identificação de novos vírus. Ganhou destaque na Alemanha durante a pandemia por trabalhar para conter o surto no país;
  • Andrew Rambaut – biólogo evolucionário britânico, é professor da Universidade de Edimburgo.

O que estaria nos e-mails

Eis o que consta nas versões transcritas de 8 e-mails vazados pelo comitê. Teriam sido trocados em 2 de fevereiro de 2020.

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  • O pesquisador britânico e diretor do Wellcome Trust, Jeremy Farrar, envia e-mail a Collins, Fauci e Lawrence Tabak, diretor interino do NIH. Segundo a transcrição, ele afirmou que Mike Farzan (pesquisador que descobriu o receptor SARS) identificou anomalias que dificultariam a transmissão do vírus de animais para humanos. Pergunta se os colegas conhecem o laboratório de Wuhan e diz que o vírus poderia ter sido liberado na natureza acidental ou naturalmente.
  • Collins envia e-mail para Farrar, Fauci e Tabak. Diz que está perto de concluir que a “origem natural é a mais provável”. Cita como base os argumentos dos virologistas Ron Fouchier e Christian Drosten, e a necessidade de convocar especialistas. “Ou vozes da conspiração dominarão rapidamente, fazendo um grande dano potencial à ciência e harmonia internacional”, teria escrito, com base nas transcrições disponibilizadas pelo comitê.
  • O biólogo britânico Andrew Rambaut agradece aos colegas por convidarem-no a integrar uma call sobre o tema. Diz que é cético em relação à “fabricação do vírus”, mas que não tem conhecimento sobre virologia laboratorial necessário para acrescentar sobre o assunto.
  • Do ponto de vista evolucionista, porém, Rambaut teria dito que a transmissão de covid entre animais e humanos lhe parece “incomum”. Escreve também que só especialistas em Wuhan poderiam esclarecer o caso: “Se discutirmos as origens evolutivas da epidemia, acho que as únicas pessoas com informações suficientes ou acesso a amostras para resolvê-lo seria as equipes que trabalham em Wuhan”.
  Cientistas discutiram hipótese de “vírus fabricado” na China © Fornecido por Poder360

Ao jornal britânico The Telegraph, Comer afirmou que os e-mails não foram editados. “Mostram que especialistas como Fauci levaram a teoria do vazamento do laboratório de Wuhan muito mais a sério do que deixaram transparecer”, disse.

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O Poder360 solicitou manifestação de Fauci e Collins a respeito do relatório, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. Ainda não há pronunciamentos dos médicos sobre o assunto em nenhum veículo de comunicação.

O que se sabe até agora sobre a origem da pandemia

O 1º resultado da investigação de especialistas da China e da OMS (Organização Mundial da Saúde), lançado em março de 2021, indicou que a hipótese mais acertada é que o vírus foi transmitido aos seres humanos via animal intermediário.

O relatório, à época, descartou a tese de que o vírus teria sido criado em laboratório. Destacou a necessidade de estudos adicionais para além da China.

A OMS, porém, retomou a caso com uma nova equipe de especialistas em setembro de 2021, depois de pressão internacional. Na 1ª investigação havia críticas sobre a relutância de Pequim em compartilhar os dados brutos. A China citava preocupações sobre a confidencialidade dos pacientes.

Os EUA iniciaram uma investigação independente, mas não chegaram a uma conclusão sobre a origem da covid. Acusou a China de “falta de transparência”. Os 2 países protagonizam um impasse comercial que se aprofundou na pandemia. O ex-presidente Donald Trump acusou o país asiático de criar o novo coronavírus propositalmente para “desestabilizar o Ocidente”. Pequim nega.

Na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), o presidente chinês Xi Jinping declarou que o país manterá apoio no rastreamento das origens da pandemia, e que é contra “manobras políticas” sobre o caso. A China defende que os esforços investigativos passem a contemplar também outras nações.

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